Quando as portas do prestígio começam a estreitar-se, os princípios tornam-se, por vezes, uma questão de sobrevivência. O comportamento humano encerra essa inclinação paradoxal para ceder convicções diante da necessidade, sobretudo quando está em jogo o acesso a um lugar socialmente valorizado.
As instituições de ensino superior, embora historicamente associadas à razão, ao conhecimento e à promessa de emancipação, não estão imunes a dinâmicas de corrosão moral. A autoridade pedagógica corre o risco de se transfigurar em dominação quando a fragilidade de quem busca a progressão académica é explorada pelo uso indevido do estatuto institucional. É dessa dinâmica que nasce o romance O Docente das Notas Sexualmente Transmissíveis, de Sérgio Raimundo.
No entrecruzamento entre poder e vulnerabilidade, o romance equaciona o assédio sexual no meio académico. De um lado, sobressai o docente que instrumentaliza o cargo, transformando a prerrogativa pedagógica em domínio sobre a estudante. Do outro, posicionam-se mulheres confrontadas com circunstâncias que esvaziam a simplicidade do acto de escolher.
Ao dar voz a um docente viúvo, a narrativa conduz o leitor para a perspectiva do assediador, deixando que a sua própria consciência exponha os mecanismos através dos quais racionaliza a conduta. O narrador não se reconhece como vilão; pelo contrário, recorre ao sarcasmo para teorizar as próprias acções, tratando o corpo da estudante como uma simples «moeda viva», entregue em prestações. A racionalização da sua conduta assenta na tentativa de subverter o assédio sexual num suposto contrato de conveniência mútua, transferindo para a estudante a iniciativa de quem «sabe como o mundo funciona».
No capítulo V, essa matriz conceptual manifesta-se sem reservas quando se afirma que «o melhor negócio que se pode fazer com uma mulher é aquele cuja moeda de troca é o seu próprio corpo». Sob essa lógica, a obra destaca com acuidade a vulnerabilidade a que a mulher é submetida e os limites até onde o sistema a impele a ceder.
Nesse quadro, o intelecto da estudante é metodicamente eclipsado pela leitura do seu corpo como estímulo de desejo, reduzindo a sua passagem pela universidade a um percurso de concessões.
É nesse núcleo de tensão que o romance adquire maior consistência, mas é também aí que determinadas opções de construção textual condicionam o desenvolvimento das questões levantadas. A voz narrativa, por vezes, antecipa conclusões que deveriam emergir da própria dramaticidade das cenas. Em vez de permitir que o conflito mature nas entrelinhas ou na ambivalência das personagens, o texto tende a explicitar o sentido dos acontecimentos, quando talvez pudesse deixar outras vias de leitura em aberto.
Nesse aspecto, a obra beneficiaria de uma exploração mais ampla do dilema psicológico. O que acontece quando a necessidade faz parecer consentido aquilo que nasce da coacção? E como se reconfigura a consciência de quem aprende a formular a violência sob a linguagem do negócio? Caberia a estas interrogações pairar sobre o enredo, desassossegando o leitor.
Ainda assim, esta opção estética não reduz a relevância da obra. Afinal, Sérgio Raimundo expõe as fracturas do meio académico e realiza uma intervenção necessária no debate público, trazendo à tona a persistência do abuso de poder e a sua progressiva naturalização. Ao abordar o desequilíbrio dessas relações, o enredo estabelece um ponto de contacto com a ordem jurídica espelhada na Lei n.º 13/2023, de 25 de Agosto (Lei do Trabalho), que, no seu artigo 75.º, condena qualquer forma de coacção, assédio ou retaliação decorrente da recusa de favores ou vantagens.
O romance devolve, assim, à literatura a capacidade de mobilizar a reflexão, permitindo que o leitor reconheça os desvios éticos que perpassam certas relações de autoridade e perceba como a procura por um diploma pode custar a própria dignidade.




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