Quando Énia Lipanga convidou-me para declamar alguns dos versos que compõem a sua mais recente obra, “Para Crentes Lerem Escondido”, aceitei o convite sem saber que, para além dos poemas que me caberia levar à voz, sairia daquele encontro com uma outra história para contar. O título do livro já era, por si só, suficientemente provocador para um homem que continua a aprender, com a humildade possível, a relação entre a fé, a palavra e aquilo que os homens fazem em nome de Deus. Há qualquer coisa de deliciosamente contraditório em mandar crentes lerem escondidos, porque a primeira pergunta que ocorreu-me foi bastante simples: escondidos de quem? Dos outros crentes, compreendo. Dos líderes religiosos, ainda consigo imaginar. Agora, se a intenção for esconder de Deus, o problema deixa de ser espiritual e passa a ser logístico, porque ainda não me indicaram um lugar onde Ele não chegue.

E esta ressalva é necessária logo aqui, no princípio, sobretudo porque já conheço suficientemente o mundo em que vivemos para saber que basta juntar as palavras mulher, corpo, preto e Deus no mesmo texto para alguém interromper a leitura antes do segundo parágrafo e começar a organizar a minha condenação. Não pretendo disputar Deus com ninguém, muito menos determinar-Lhe uma cor. A minha fé nem sequer autoriza-me semelhante exercício. Interessa-me outra coisa: perceber por que razão nós, seres humanos, tivemos tanta necessidade de dar aparência àquilo que afirmamos ser superior à nossa própria capacidade de representar e, depois de Lhe darmos uma aparência, passámos a organizar o mundo segundo a imagem que nós próprios produzimos.

Paulina Chiziane ajuda-me a entrar nesta conversa. Num dos seus pronunciamentos sobre religião, disse que “Deus não é cristão”, que “Deus não tem religião” e, numa formulação que interessa-me particularmente, que “Deus não é propriedade privada”. A afirmação não me parece uma ofensa a Deus; parece-me, antes, uma chamada de atenção aos homens que desenvolveram a estranha pretensão de administrar o acesso a Ele. Paulina prossegue reivindicando o direito de cada povo e de cada cultura procurar Deus à sua maneira e pergunta por que razão ela, africana e moçambicana, teria de dizer Deus na língua do outro. A pergunta é bem mais profunda, porque não discute apenas língua ou religião. Discute poder. Quem teve, ao longo da História, autoridade para dar nome a Deus, desenhar-Lhe um rosto, dizer onde Ele mora e determinar a maneira correcta de chegar até Ele?

Vamos regressar a África e à velha narrativa segundo a qual os que chegaram de fora trouxeram-nos Deus. Trouxeram-nos muitas coisas, algumas das quais ficaram tão profundamente instaladas em nós que já nem sempre conseguimos distinguir onde terminam elas e onde começamos nós. Trouxeram instituições religiosas, doutrinas, livros, nomes, imagens e determinadas maneiras de organizar a relação com o sagrado. Mas dizer que trouxeram Deus exigiria aceitar que, antes deles, os nossos antepassados olhavam para o céu, para a chuva, para a morte, para o nascimento, para a fertilidade da terra e para o mistério da existência sem qualquer noção de transcendência. John Mbiti, entre os pensadores africanos que mais estudaram a religião no continente, combateu justamente essa presunção. Os missionários trouxeram o cristianismo, mas não podiam ter trazido Deus a um continente cujos povos já O procuravam, nomeavam e compreendiam dentro das suas próprias cosmologias.

Paulina vai ainda mais longe quando fala da forma como os africanos foram ensinados a imaginar o divino. Numa entrevista sobre religião e colonialismo, recorda a ideia colonial de que o africano não conhecia Deus porque não possuía as igrejas e as estruturas através das quais o europeu reconhecia a religião. Em contraposição, fala de uma compreensão africana em que Deus não precisa de estar encerrado entre paredes porque está no cosmos, na lua, na estrela, no mar, na água e na árvore. A diferença parece apenas religiosa até percebermos que, junto com a nova forma de chegar a Deus, chegaram também imagens de como o sagrado deveria parecer. E essas imagens, curiosamente, não se pareciam connosco.

Crescemos a ver anjos brancos. Vimos santos brancos. Vimos um Jesus que, apesar de ter nascido no Médio Oriente, atravessou boa parte da nossa infância com feições europeias, cabelos que não se pareciam com os nossos e uma pele suficientemente distante daquela que víamos quando regressávamos do catecismo e encontrávamos as nossas mães em casa. O problema nunca foi uma criança europeia imaginar Deus parecido com as pessoas que conhece. Isso seria até compreensível. O problema começou quando a imagem produzida por um povo viajou juntamente com o poder desse povo e passou a apresentar-se não como uma representação cultural, mas como se fosse a própria aparência do sagrado.

Foi no lançamento do livro de Énia, no meio destas coisas que eu ainda não tinha organizado desta maneira, que vi uma mulher. Não preciso de suspender o parágrafo para anunciar que era preta. Era. E quero usar precisamente essa palavra porque também interessa-me o desconforto que ainda sentimos diante dela. Desenvolvemos uma delicadeza linguística extraordinária para contornar o preto quando ele se refere à pele: muito comum nas novelas brasileiras ouvir pessoa de cor, morena, escura, escurinha, mulata quando a geometria permite, e tantas outras maneiras de dizer uma coisa sem termos de a dizer pelo nome. Aquela jovem era preta, lindamente preta, com uma tonalidade tão intensa que fez-me reparar nela no meio de tantas outras pessoas que estavam naquela sala. Não foi uma conclusão política, não foi consciência racial, não foi sequer uma elaboração intelectual naquele primeiro instante. Achei-a simplesmente bonita.

E isso também precisa de poder ser dito sem que tudo o que vem depois seja transformado numa tentativa de justificar o olhar de um homem casado sobre outra mulher. Sou casado, amo e respeito a mulher com quem construo a minha vida, mas o casamento, felizmente, não provoca cegueira. O compromisso que assumimos com alguém deve educar o que fazemos com o nosso olhar, não fingir que deixámos de ter olhos. Existe uma distância moral bastante séria entre reconhecer a beleza de uma pessoa e considerar que essa beleza nos concede algum direito sobre ela. Aquela jovem não me devia nada por eu a ter achado bonita, nem sequer o sorriso que mais tarde ofereceu-me, e esta distinção importa porque as mulheres já carregam demasiadas vezes o peso da interpretação masculina sobre os seus próprios corpos.

Tirámos algumas fotografias durante o evento e, por alguma razão que ainda não sei explicar inteiramente, fiquei com vontade de encontrar uma em que aparecemos juntos. Não sei o nome dela, não tenho o seu contacto e não sei sequer por onde começaria a procurá-la. Ficou-me apenas a memória daquela pele e, mais tarde, um pequeno episódio que tornou a lembrança ainda mais persistente. Eu conversava com Nádia Munguambe, outra mulher que aprendi a respeitar pela liberdade com que escreve e pela pouca paciência que demonstra diante de certos moralismos de conveniência. Nádia pertence a essa categoria perigosa de pessoas que dizem a sua própria verdade sem primeiro submetê-la à comissão de ética dos que vivem preocupados com a vida alheia.

A jovem estava sentada não muito longe de nós e eu, enquanto conversava com Nádia, voltei a reparar nela. Disse qualquer coisa próxima de: “Aquela mulher tem uma cor linda.” Não sei se falámos suficientemente baixo ou se ela possui aquela espécie de audição reservada às pessoas sobre quem se está a falar, mas virou-se e olhou na nossa direcção. Nessas situações, a dignidade recomenda que se assuma o delito antes de começar a inventar uma conversa sobre economia. Disse-lhe que sim, estávamos a falar dela. Aproximei-me, elogiei a sua pele e ela sorriu. Foi então que lhe pedi uma coisa que, depois, continuou a coçar dentro de mim: que não deixasse que espelho algum a convencesse a clarear.

Quando disse “espelho”, evidentemente, não estava a falar apenas daquele objecto diante do qual ajeitamos a camisa antes de sair de casa. Existem espelhos que não têm vidro e para variar, estes são precisamente os mais difíceis de partir. A televisão pode ser um espelho, a publicidade pode ser outro, as redes sociais tornaram-se um dos maiores, assim como podem sê-lo os comentários familiares, as preferências amorosas que aprendemos a naturalizar e uma indústria de beleza que descobriu que existe bastante dinheiro a ganhar quando se convence uma pessoa de que a sua aparência natural constitui um problema à espera de solução. Nem sempre se diz a uma mulher preta que seria mais bonita se fosse menos preta. A linguagem tornou-se mais educada. Fala-se em iluminar, corrigir, uniformizar, tratar ou melhorar o tom, enquanto a mensagem subterrânea continua suficientemente clara para quem passou anos diante desses espelhos.

Foi depois daquele encontro que a provocação começou a ganhar uma forma que não tinha quando falei com ela. Se Deus não é propriedade privada, como insiste Paulina Chiziane, também não pode ser propriedade estética de uma raça. Se nenhum povo possui Deus, nenhum povo deveria possuir sozinho o direito de Lhe emprestar o rosto. E se aquilo que chamamos Deus ultrapassa as categorias humanas de raça, sexo, território e língua, talvez a pergunta não deva ser qual é a Sua cor, mas por que motivo nos habituámos tanto a determinadas representações do divino que outras nos parecem imediatamente ofensivas.

Porque, curiosamente, quase ninguém se perturba diante de uma imagem europeizada de Deus. O escândalo é quando alguém imagina Deus preto. Foi nesse ponto que compreendi melhor a mulher que tinha visto no lançamento de Énia. Eu não queria dizer que Deus tem a pele daquela jovem. Continuo sem saber qual seria a cor de Deus e não tenho nenhuma urgência em descobrir. Queria perceber outra coisa: se Deus tivesse uma cor e essa cor fosse precisamente aquela que durante séculos esteve no lado inferior das nossas hierarquias estéticas, que parte das nossas certezas sobreviveria?

Paulina, noutra provocação, chegou a dizer que, se Deus existe, é mulher. Não precisamos concordar com ela teologicamente para perceber o que está a fazer ao pensamento. Ela desloca Deus do lugar onde os homens O instalaram e obriga-nos a olhar novamente para as nossas próprias construções. Eu faria agora um exercício parecido, embora por outro caminho: se alguém me dissesse que Deus é preto, muito preto, daquela negrura que não precisa da benevolência da luz para existir, por que razão essa imagem haveria de me parecer mais absurda do que todas as outras que aceitei sem perguntar nada? A pergunta é para nós, não para Deus.

A jovem que encontrei naquela noite provavelmente não sabe que me deixou esta inquietação. Também não quero transformá-la, à força, numa personagem carregada de simbolismos que nunca pediu para representar. Não sei se alguma vez teve problemas com a sua cor, se já usou produtos para clarear a pele, se alguma vez sofreu uma ofensa racista ou se, pelo contrário, sempre viveu perfeitamente reconciliada com a mulher que encontra no espelho. Inventar-lhe um sofrimento apenas para melhorar a minha crónica seria uma outra forma de violência. Sei apenas que a vi, achei-a extraordinariamente bonita, disse-lho e pedi-lhe que nenhum espelho a convencesse a ser menos preta.

Também precisamos de vigiar os espelhos diante dos quais colocamos as nossas crianças. Precisamos de perceber por que razão uma menina preta pode crescer num país maioritariamente preto e, mesmo assim, aprender que há qualquer coisa a corrigir na intensidade da sua própria pele. Precisamos de perguntar de onde vieram as escalas com que medimos cabelo bom e cabelo mau, traço fino e traço grosso, pele bonita e pele demasiado escura. Nem tudo pode continuar a ser explicado pela confortável frase “é apenas gosto”, porque o gosto também aprende, também herda, também é educado e, algumas vezes, carrega dentro de si uma História inteira sem saber o nome dela.

Continuo à procura daquela fotografia. Gostaria de rever-me ao lado daquela jovem e confirmar se a memória não acrescentou luz onde havia apenas uma sala comum, duas pessoas que não se conheciam e alguns segundos diante de uma lente. Se algum dia a encontrar, provavelmente vou sorrir outra vez, mas não apenas por causa dela. Vou lembrar-me de Énia Lipanga e de um livro que manda crentes lerem escondidos, de Nádia Munguambe e da nossa conversa, de Paulina Chiziane recusando que alguém transforme Deus em propriedade privada.

Não sei a cor de Deus e não escrevo esta crónica para Lhe atribuir uma. Acredito, aliás, que qualquer tentativa de O reduzir às nossas categorias acabaria por dizer muito mais sobre nós do que sobre Ele. Mas sei que, se Deus criou aquela mulher com aquela pele, não consigo imaginar que tenha cometido um erro de tonalidade. O erro começa depois, quando somos nós a colocar diante dela espelhos que pretendem corrigir aquilo que Deus não pediu que fosse corrigido.

Foi por isso que, naquela noite, sem saber ainda que escreveria estas palavras, fiquei diante de uma mulher lindamente preta e pensei na beleza. Agora que escrevo, penso também em Deus. E já não tenho tanta certeza de que estivesse a pensar em duas coisas diferentes.


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