Era sábado cedo, e eu estava no quintal a lavar roupa. A bacia azul cheia até à metade, a espuma teimosa a fazer pequenas montanhas que o vento levava como se fossem nuvens baixas. O sol, ainda tímido, espreitava por cima do alpendre. Do meu celular, escutava, repetidamente, a nova música do Twenty Fingers, ao lado do Nelson Freitas, dando um ar de tranquilidade, àquela hora em que as casas respiram fundo antes do tumulto do dia. Foi quando ouvi as vozes.

Primeiro, um sussurro apressado, depois um levantar de tom, e em pouco tempo a conversa já ia rente ao muro que divide os nossos quintais — o meu e o deles, um casal jovem, classe média esforçada, casados há um ano e meio, com um filho de quatro anos que, quando não está a rir, está a inventar forma nova de rir. As paredes por aqui têm o costume antigo de escutar demais, e aquela, em particular, devolvia-me as falas como se fosse tambor.

— Eu disse-te ontem — a voz dela, firme, quase metálica —, que vou a Ponta do Ouro com as minhas amigas. Voltamos segunda-feira, ao final do dia. É um fim-de-semana longo. Quero apanhar sol, dançar, curtir. Sou jovem. Preciso de viver.

— Não discuto que sejas jovem — a voz dele, mais baixa, mas com aquela gravidade de quem não está a jogar conversa fora —. O que discuto é que somos um. Que temos uma criança de quatro anos que nos olha como quem olha o mundo. E que estes dias, raros, de feriado colado com fim-de-semana, podiam transformar-se em memórias afectivas.

— Memória também se faz com amigas — respondeu ela, sem hesitar. — Com gargalhadas que não precisam explicação, com conversas de infância, com a tal liberdade que toda a gente diz que se perde quando se casa.

— Ninguém te prendeu — ele devolveu, e eu ouvi-lhe a ferida por detrás do tom. — Eu não te prendi. Trabalhamos os dois, damos o nosso melhor, não falta comida, não falta escola, não falta luz e água, internet e TV. Mas falta-nos tempo juntos. E o tempo, sabes, não se compra.

Parei de esfregar a camisola da CONFIA que tinha nas mãos. Ajeitei a minha coluna, que já doía, e bati com a bacia, fazendo a água “pintar” o chão de cimento, desenhando um mapa mal feito que, se calhar, mostrava Ponta do Ouro — ou talvez apenas a distância entre duas vontades.

— Tu dizes isso — insistiu ela — como se eu estivesse a abandonar a família. Não estou. Vou dois dias. Vou dançar, rir, ser uma “gaja” outra vez. Não me tires isso, por favor. Tenho vinte e sete anos. Casei-me, sim, porque te amo, porque quis, porque fazia sentido. Mas não deixei de ser eu. E essa “eu” gosta de curtir.

— Eu lembro-me dessa “tu” — disse ele, quase em segredo —. Foi por ela que me apaixonei. Mas lembro-me também da “tu” que prometeu quando casámos que a nossa casa seria porto. E um porto não é casa sem quem nele ancorar.

— Vou ancorar segunda ou outro final de semana — disse ela, um pouco mais branda —. E trago camarão, prometo. Sei que vocês, meus meninos, gostam dos frescos na matapa.

— Ele gosta mais de construir aquelas casas com almofadas na sala. Ele gosta mais de ver-te a bater palmas quando eu marco golo no quintal. Ele gostaria de… nós.

Silêncio. O tipo de silêncio que me obrigou a espremer a camisola com mais força do que o necessário, como se assim o muro deixasse de ser espelho.

— Nada nos falta em casa — retomou ela, agora com um cansaço a entrar-lhe pela voz —. Tu sabes, eu sei: falta de dinheiro não é a nossa guerra de todos os dias. Lutámos os dois para isso. Se nada nos falta, por que me queres faltar a mim? Deixa-me ir. Deixa-me respirar.

— Não te quero faltar — disse ele. — Quero caber. E quero que caibamos os três, eu, tu e o nosso filho, numa foto que não precise de filtro. Sinto que, às vezes, andamos a viver como quem divide o calendário ao meio: as tuas sextas, os meus domingos, o sábado para as tarefas, e, no meio, um filho que recolhe migalhas de tempo como quem aprende a varrer.

Ela suspirou. Mesmo através do muro, a respiração dela chegou-me como ventania de Agosto.

— Estás a ser injusto. Eu fico em casa, eu brinco, eu canto e danço com ele. Só que… — e calou-se por um momento — só que a minha alma pede barulho de música alta, pede corpo leve. Eu não quero virar tia rabugenta aos vinte e sete. Não quero acordar daqui a dez anos a perguntar onde é que a vida ficou.

— Talvez a vida esteja a bater-te à porta — sussurrou ele — e tu estás a ir para a praia.

Houve um riso dela, curto, mas sincero.

— És bom com palavras. Mas as palavras não me tiram a vontade da areia nos pés. Sabes como é Ponta do Ouro: a estrada, as barracas, o movimento, a música a sair dos carros. Eu quero isso, por dois dias.

— E eu quero nós — insistiu ele —, por dois dias. É pedir muito?

Voltei a esfregar, desta vez a camisola. 

— Isto que falas de “nós” — ela atirou — por vezes parece coisas dos reels do Facebook com teor motivacional. É uma promessa bonita, uma fotografia com moldura. Mas eu não quero ser moldura, quero ser pessoa. O casamento não me tirou a juventude. Deixa-me gastar um bocado dela onde me apetece.

— E o casamento não me tirou a ti — respondeu ele, sem fugir. — Deixa-me gastar um bocado de ti onde pertenço.

Outra pausa. Eu já não sabia se lavava roupa ou se lavava a alma com aquelas vozes.

— E a exposição? — retomou ele, agora num registo de advogado do diabo —. Uma mulher casada, num lugar como aquele, com música, com vídeos, com pessoas a filmar tudo. Sabes como são as redes sociais: uma foto viaja mais rápido do que o vento. A língua das pessoas é afiada.

— Não sou responsável pelo veneno alheio — ela cortou. — Não vivo para os olhos dos outros. Vivo para a minha consciência, e a minha está limpa. Vou dançar, não vou trair-te. Vou rir, não vou esvaziar a nossa casa. Achas mesmo que uma foto minha num bar, a brindar com amigas, tem mais peso do que anos de fidelidade, de companheirismo, de luta conjunta?

— Não — ele disse —. Mas pesa. Pesa porque vivemos em comunidade. Pesa porque o nosso filho vai crescer entre essas mesmas bocas. Pesa porque nós dois, quando prometemos, não prometemos apenas um ao outro: prometemos também à roda que nos rodeia, que nos empresta olhos quando os nossos cansam.

— E eu pergunto-te — fez ela —: e quando tu saías com os teus amigos para ver o jogo? E quando ficavas até tarde a beber no Frango? Também pesava?

— Pesava — concedeu ele. — E tenho, por isso, tentado compensar. Trago o jogo para casa, ligo a televisão, ensino o miúdo a gritar “golo” e a chatear a tua paciência com replays. Não é perfeito, mas é caminho.

— Eu não sou jogo.

A bacia ficou sem espuma por um instante. Fui buscar o detergente. Voltei, e as vozes tinham abrandado. O miúdo, lá dentro, começou a cantarolar qualquer coisa de desenho animado. Um refrão curto, repetido, que parecia pedir paz.

— Olha — disse ela, enfim mais macia —, eu não quero que isto nos divida. Não quero. A minha vontade de ir não é vontade de te deixar. É de voltar melhor, mais leve, com a cabeça arrumada. Às vezes, dois dias de escape curam um mês de cansaço. Sabes como é o trabalho. Eu preciso deste reset.

— E eu preciso de nós — repetiu ele, como se esse fosse o seu mantra. — Preciso de te ver a mim. E temo que, se deixarmos sempre a vida para depois, o depois vire estrangeiro.

— “Sempre” não — corrigiu ela —. “Desta vez”. Deixa-me ir “desta vez”. E, quando voltar, fazemos o nosso fim-de-semana de família. Prometo. Sem desculpas.

— Promessas são fáceis — disse ele, sem crueldade —. Cumpri-las é que pesa.

— Eu cumpro — garantiu ela. — Não me tires a fé que tenho em mim.

Houve um ruído de cadeira arrastada. Depois passos. Aproximaram-se mais do muro, talvez sem saber que eu era audiência. Ou sabendo, quem sabe; às vezes as pessoas querem que alguém escute o que não conseguem dizer a si mesmas.

— Sabes — disse ele, já mesmo rente —, quando nos casámos há um ano e meio, não me saía da cabeça a frase do padre: “O que Deus uniu, não separe o homem.” E eu pensei: o “homem” não é só outro homem; às vezes é o homem dentro de nós — o ego, o capricho, o medo de perder aquilo que “eu” fui. O que nos separa, devagarinho, não é outro corpo; é outra prioridade.

— E se a prioridade for a minha saúde mental? — ele ouviu-a sorrir, mas era sorriso sério —. Sabes que não é fácil ser mulher, trabalhar, gerir casa, ser mãe. Entre o carro e o fogão, entre o chefe e o lava-louça, há uma pessoa a desaparecer, às vezes. Dois dias de escape devolvem-me a cara. Devolvem-me paciência. Eu volto melhor, juro-te.

— Eu acredito — disse ele. — E, no entanto, desejo encontrar um caminho que não nos separe no processo de te encontrares.

— Podes ajudar-me a arrumar a mala? — ela disse, suave, como quem testa se a ponte aguenta.

— Posso — ele respirou —, se aceitares que eu arrume também a casa para te receber segunda. E se aceitarmos, juntos, que o nosso filho não é figurante da nossa vida.

— Nunca foi — ela garantiu. — É protagonista. E nós, co-protagonistas.

— Então escreve um script em que ele entra neste fim-de-semana — pediu ele. — Nem que seja por vídeo, por chamada. Fica combinado?

— Combinado — ela prometeu.

Silêncio. Desta vez, bom. As mangueiras mexeram-se. Meus “megas” acabaram, por isso já não ouvia o Twenty Fingers. Lavei mais duas camisas e umas blusas da minha esposa, e a manhã parecia disposta a dar-me regresso de paz.

Mas a conversa ainda tinha epílogo.

— E tu? — perguntou ela, do lado de lá, em tom que parecia abraço —. Podes também fazer a tua parte? Quando eu voltar, espera-me com uma refeição supresa, com o nosso filho de pijama e as almofadas no chão. Faz de casa o tal porto.

— Faço — disse ele, sem hesitar. — Faço porque também quero que a foto não precise de filtro.

— E prometes não dizer “lavagem de imagem”? — brincou ela, e riram os dois.

— Prometo dizer “lavagem de alma” — devolveu ele. — Como o vizinho ali deve estar a fazer com a roupa.

Sorri, sozinho, no meu quintal. Às vezes as paredes têm ouvido; às vezes têm língua.

Afastei-me do muro. Enquanto pendurava a roupa no estendal, pensei em quantas coisas penduramos sem saber: vontades, medos, sonhos a pingar. Ponta do Ouro brilhava-lhes nos olhos, eu sabia. E também sabia que a casa, se bem tratada, brilha sem precisar de “tchilling”. Arrumei as molas que restaram na sacola delas.

Antes de entrar, voltei a escutar: a porta deles fechou-se, passos para dentro, vozes mais baixas. Talvez tivessem encontrado um meio-termo — essa palavra que salva famílias sem pedir manchete. Talvez não. Talvez ainda houvesse aresta para limar, ressentimento para desfazer, promessas para cumprir. Mas havia, pelo menos, um fio: falaram. E falar é a primeira reconstrução depois da onda.

Entrei para o interior de minha casa. A minha família ainda dormia: a minha esposa deitada de lado, o nosso pequeno atravessado como quem quer estar em todas as direcções ao mesmo tempo. A sala em penumbra, as cortinas a brincar de esconder-se com a brisa. Na mesa, a lista que combináramos na sexta-feira: filmes para ver, desenhos animados para ele que nós também gostamos e biscoitos caseiros. Fui até a cama e falei no ouvido de minha esposa “Amor, hoje há jogo em Tchumene.” Sem abrir os olhos, ela sussurrou com voz de comando: “Nós vamos contigo.”

Sorri! Curtir também é isto: escolher ficar, escolher voltar, escolher irmos todos. 

No fim do dia, pensei neles, os vizinhos do outro lado do muro. Pensei nela, a preparar a mala, a dobrar os fatos de banho com uma pontinha de culpa e outra de liberdade; nele, a alinhar pratos na mesa, a imaginar o domingo que vem; no miúdo, a desenhar com lápis pequenos uma casa com um sol dentro — porque as crianças, quando desenham casas, sabem sempre onde o sol se põe.

Pensei, sobretudo, no que nos faz núcleo: não é o “não sair”, nem o “não dançar”; não é o “ficar calado”, nem o “fazer tudo igual”. O que nos segura no centro de uma sociedade é a capacidade de medir o nosso passo pelo comprimento do abraço. Às vezes, um de nós vai mais longe — Ponta, Bilene, chama, a estrada acena. Mas a fita métrica do amor regressa sempre ao mesmo ponto: cabemos ainda? Se sim, seguimos. Se não, voltamos um pouco atrás e apertamos os nós.

Salvem a família — não com discursos ou fotos editadas, mas com gestos pequenos de sábado: lavar roupa enquanto se ouve o vizinho (“tô a brincar pha”). Uma sociedade inteira pode caber num sofá, se for ali que se aprende, devagar, a não deixar ninguém para trás.

Fotografia: Freepik


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