Viajar é um acto de fé. Sempre o acreditei. Quando aceitei o convite para participar no “Vilanculos Música & Poesia Acústica”, não sabia exactamente o que me esperava. Apenas sentia que havia algo, lá adiante, a chamar-me. Não um lugar apenas, mas um espírito. Antes da partida, detive-me um instante no nome. Vilanculos, Vilankulo ou Vilanculo?
Cada variação parecia conter uma história diferente. Pesquisei, curioso, e descobri que o nome provém de um homem: Gamela Vilankulo Mukoke, chefe local que outrora governou estas terras antes do mapa as dividir em fronteiras. A vila herdou-lhe o apelido, mas, ao longo do tempo, os documentos coloniais, as grafias administrativas e os usos populares fragmentaram-no.
Uns dizem Vilankulo, no singular, como o nome original da localidade principal; outros dizem Vilanculos, no plural, por referência às antigas divisões administrativas, ou talvez porque um nome tão vasto precisava de mais sílabas para conter o mar. Entre um e outro, percebi que o essencial não é a ortografia, mas o que o lugar representa. Cada letra é uma corrente, cada variação um sopro da mesma raiz. E assim compreendi que Vilanculos é plural porque o mar nunca é só um.
Parti de Maputo às 10h40, num voo que me levou acima das nuvens, onde o tempo se suspende e a memória se reescreve. O avião cortava o ar com uma serenidade quase musical, e eu olhava pela janela como quem observa o próprio pensamento a flutuar. Por baixo, a terra parecia um tapete de tons ocres e verdes; o Índico, uma mancha azul infinita. Em mim, uma mistura de expectativa e gratidão.
Cheguei a Vilanculos às 12h40. O calor acolheu-me como um abraço antigo. À saída do aeroporto, estava Grace, amiga da Alva Wadyeko, com um sorriso que parecia conter o próprio sol. Recebeu-me com uma simpatia simples, dessas que dispensam cerimónias, e levou-me ao Âncora Boutique Hotel, onde me esperava o sossego.
O hotel tinha o mar por vizinho. Do quarto via-se o azul inteiro, respirava-se o sal, e o horizonte parecia não conhecer fim. Sentei-me na varanda, deixei a minha pasta no chão e pensei: “Cheguei onde o tempo se esquece de passar.”
À noite, eu, a Alva e a Muenda (que também partira de Maputo, como convidada) fomos reconhecer o espaço do evento, o Insomnia Cocktail & Bar Restaurant, que já de si tinha um nome curioso, tipo, um convite à vigília, como se a arte não permitisse descanso. O local estava em arranjos, mas já se pressentia nele o prenúncio do que estava por vir. As luzes, as cores, o ar de promessa.
Ficámos um bom tempo ali, a conversar. Falava-se da disposição das paletas, da ordem das actuações, dos músicos, dos adereços que dariam o tom ao tema “Blanket & Wine”. Havia em cada detalhe o toque minucioso de Alva, essa mulher de visão, que organiza como quem sonha e sonha como quem constrói. Mais tarde, seguimos para conhecer algumas casas de pasto da cidade, e fomos ao Nhelety, escutar música “maningue nice”. Vilanculos à noite tem uma alma diferente: mais livre, mais próxima.
Na manhã seguinte, acordei cedo. O sol atravessava a janela com uma claridade de promessa. O evento seria à tarde, e o dia amanhecera com o rumor de algo importante. Caminhei pela praia, deixei que a areia me reconhecesse os passos. As crianças brincavam perto da água, os pescadores regressavam com o rosto cansado e sereno. Tudo em Vilanculos se move devagar, mas nada se repete.
À tarde, quando chegámos ao Insomnia, o espaço anunciava a festa. As capulanas e outros artigos pendiam nas bancas de exposição como bandeiras vivas. O público começou a chegar, em grupos pequenos, e as suas mãos eram “baptizadas” com vinho e expectativa nos olhos. A Sádia Machava, mestre de cerimónias, irradiava muita simpatia. O dia prometia boa cena, e foi.
Quando a Sádia tomou o microfone e deu as boas-vindas, o murmúrio cessou. Disse poucas palavras, mas certas: “Hoje, Vilanculos é o coração de Moçambique. Aqui canta-se, declama-se e vive-se a nossa arte.” E com isso, começou o encantamento.
Six Eduardo abriu o palco com uma canção que parecia ter sido escrita para aquele momento. A sua voz preenchia o ar, e a cada nota o público se rendia.
Nito Djembe acompanhava-o, e o som da percussão ressoava dentro do peito, lembrando-nos que há ritmos que antecedem a linguagem. Lucy Agy, Winna Kayla, Samuel Albano e DJ Michael sucederam-se num desfile de talento e entrega. A música era o fio invisível que unia todos, conectando-nos a poesia.
A Associação dos Escritores e Declamadores de Vilanculos entrou em cena, e as vozes começaram a erguer-se. Eram versos de amor, de luta, de esperança. Palavras que vinham do chão, cheias de pó e de verdade.
Depois chamaram-nos para uma conversa sobre o mundo que há em nós, e terminamos com versos que abraçavam a todos. A poesia tem disso: quando é sincera, cala o mundo inteiro. Aplausos, sim, mas o que mais me tocou foi o olhar das pessoas, com aquele brilho manso de quem compreende sem precisar traduzir.
Em alguns momentos, encontrava a Alva. O rosto dela mais descansado, e com aquele sorriso que só Deus soube desenhar, orgulhosa, não de protagonismo, mas de missão cumprida.
– Estás a ver, Negro? – disse-me. – A poesia mora aqui. Só precisava que a ouvíssemos.
– E tu abriste-lhe a porta, respondi.
A conversa perdeu-se no barulho das vozes, mas a essência ficou: a arte é o que se faz com amor e persistência. E ali, em Vilanculos, percebi que a Alva não organizava eventos, semeava sentidos. O que ela fazia era mais do que reunir artistas; era criar uma constelação onde cada talento encontrava o seu lugar.

Depois do sarau, seguimos para o Wasabi. O ambiente era descontraído, e o cheiro do sushi misturava-se com o riso. As conversas cruzavam-se: falava-se de música, de sonhos, de futuros possíveis. Regressei ao hotel tarde. O mar lá fora continuava a murmurar, fiel ao seu ofício de eternidade. Vilanculos ensina-nos que a arte não é espectáculo, é pertença.
Na manhã seguinte, antes do nosso voo, Alva quis mostrar-nos um último segredo. Levou-me a mim e à Muenda até um ponto alto da cidade, um miradouro natural de onde se via o mundo inteiro: o mar a perder de vista, as ilhas a repousar no horizonte, as cores a fundirem-se num quadro vivo.
“É daqui que gosto de olhar Vilanculos”, disse ela. “Para lembrar-me do porquê.” Ficámos em silêncio. O vento soprava muito. Senti um nó na garganta. Não de despedida, mas de gratidão. Desci dali com a certeza de que a arte é, antes de tudo, um modo de ver. E Alva, com o seu gesto, ensinara-me a ver de novo, não apenas o mar e a terra, mas as pessoas e o propósito.
O voo de regresso partiu ao início da tarde. Da janela, Vilanculos encolhia-se até caber na memória, mas continuava a crescer dentro de mim. Há lugares que se deixam para trás e outros que se carregam. Este, eu sabia, carregar-me-ia a mim.
Quando as nuvens voltaram a cobrir o céu e Maputo reapareceu lá em baixo, sorri. Não voltava o mesmo. Trazia comigo um mar inteiro, e a certeza de que a poesia, quando partilhada, é também forma de resistência.
Vilanculos não foi um destino. Foi um verso que me escolheu.





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