Há um fenómeno que está a crescer no nosso país. E de forma silenciosa! Não porque não se veja, mas porque poucos o questionam. Nos últimos anos, multiplicaram-se os coachs, mentores, palestrantes motivacionais, especialistas em sucesso, mestres de mentalidade e gurus de produtividade. O microfone tornou-se ferramenta de ascensão social. Não há nada de errado em inspirar pessoas, e nem em partilhar experiências. O problema começa quando a inspiração substitui o conhecimento. Quando o palco antecede a base e a imagem chega antes do conteúdo.

Vivemos numa sociedade onde parecer é quase tão importante quanto ser. E neste ambiente, muitos investem fortemente na estética do sucesso. Fotos bem produzidas. Frases impactantes. Vídeos com música inspiradora ao fundo. Eventos com luzes, banners e slogans “religiosos”. Mas quando se escuta com atenção, percebe-se que o conteúdo é raso. Repetitivo. Importado de livros estrangeiros sem contextualização. Adaptado superficialmente à realidade moçambicana.

Num país onde milhares de jovens acordam às quatro da manhã para apanhar transporte, e nas piores das condições. Onde mães e avós trabalham nos mercados informais para sustentar filhos e netos. Onde licenciados enviam currículos durante anos sem resposta. Onde empreendedores lutam contra burocracias e falta de capital. Dizer simplesmente “se te esforçares, consegues” é quase ofensivo. Porque muitos já se esforçam.

Há jovens que estudaram à luz de candeeiro. Há homens que trabalham de sol a sol. Há mulheres que carregam filhos às costas e xidjumba na cabeça. Há professores mal pagos que continuam a ensinar. Há enfermeiros que trabalham turnos duplos. E mesmo assim, nem todos alcançam estabilidade financeira ou reconhecimento social. Quando um palestrante sobe ao palco e reduz o sucesso a mentalidade positiva, está a ignorar estruturas económicas, desigualdades históricas, limitações sistémicas. Isso não é motivação. É simplificação perigosa.

Tenho assistido a eventos onde se cobra valores elevados por poucas horas de discurso genérico. Frases feitas. Citações mal contextualizadas. Promessas de transformação rápida. Fórmulas mágicas de enriquecimento. “Se eu consegui, tu também consegues.” Mas o que poucos dizem é de onde partiram. Que rede de apoio tinham. Que capital inicial possuíam. Que oportunidades surgiram no caminho. Nem todo sucesso é apenas fruto de esforço individual. Existe contexto, privilégio, acaso e também a rede. Como nos lembra o sociólogo Pierre Bourdieu, o indivíduo não caminha sozinho; ele carrega consigo o capital social e cultural acumulado pelas estruturas que o antecederam. Ignorar isso é transformar desigualdade estrutural em falha pessoal. Quando omitimos isso, criamos frustração silenciosa. Já vi jovens saírem desses eventos energizados e, meses depois, mergulhados em culpa por não terem “conseguido manifestar” o sucesso prometido. Como se a falha fosse exclusivamente deles. Como se não existissem obstáculos reais.

Outro problema é o ego. Há quem busque o palco não por missão, mas por pertença. Ser coach tornou-se, para alguns, um símbolo de estatuto. Uma forma de entrar numa elite social. Uma identidade pública. A imagem é cuidadosamente construída. O discurso é ensaiado. O guarda-roupa é estratégico. Mas o saber profundo exige tempo, estudo, humildade e silêncio.

Conheço pessoas com histórias de luta impressionantes. Homens e mulheres que atravessaram pobreza extrema, toxicodependência, desestrutura familiar, reintegração social, deslocamento, histórico de suicídio, discriminação. Pessoas que construíram vida com dignidade, sem holofotes. Que nunca cobraram para contar a sua história. Mas se falarem durante trinta minutos, mudam mentalidades. Essas pessoas raramente se auto-intitulam coach. O perigo deste fenómeno não é apenas financeiro. É social. Criamos uma geração que acredita que sucesso é palco. Que validação é aplauso. Enquanto isso, desvalorizamos o estudo sério, a formação sólida, a experiência consistente, e a investigação profunda. Nem todo bom comunicador é bom formador. Nem todo motivador é especialista. É preciso discernimento.

Atenção! Não escrevo isto para desacreditar todos os palestrantes. Há profissionais sérios, preparados, éticos. Há pessoas que estudam, que contextualizam, que respeitam limites. Esses são necessários. Mas precisamos aprender a diferenciar conteúdo de performance. E aqui, proponho que nos perguntemos sempre: Qual é a base? Qual é a formação? Qual é a experiência real? Qual é a responsabilidade social do discurso? Porque palavras moldam expectativas, e quando estas são mal construídas geram frustração colectiva. Num país como o nosso, onde a juventude busca esperança, vender sonho sem estrutura pode ser cruel. Motivação é importante mas sem verdade é perigosa.


Descubra mais sobre kiyonga

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Uma resposta a “Coachs, mentores, palestrantes motivacionais… mais o quê?”

  1. Bem dito Negro.

    No brilho dos palcos, o sucesso é vendido como um troféu da vontade, mas omite-se, quase sempre, o mapa da mina: a rede de apoio, o capital inicial e as portas abertas pelo privilégio. E quando se reduzir a sobrevivência gigantesca do moçambicano a uma questão de “mentalidade”, o discurso motivacional torna-se uma crueldade que transforma a barreira estrutural em culpa individual.

    A verdadeira inspiração não nasce da performance, mas da honestidade de quem admite que ninguém caminha sozinho; sem o chão da realidade e a verdade do contexto, a motivação não passa de um sonho vendido sem estrutura, que ilumina o palco, mas deixa a vida na sombra.

    Texto muito necessário.

    Curtir

Deixar mensagem para Amari Bloom Cancelar resposta

Tendência