Ya! Este tema não é confortável. Mas é por isso que é necessário escrever. Nos últimos dias, os debates nas redes sociais trouxeram à superfície algo que muitos preferem ignorar ou tratar apenas em grupos de whatsApp de Xitiques. A crescente procura pelos ginásios e, junto com ela, as acusações, relatos e suspeitas de comportamentos que ultrapassam os limites das relações comprometidas. Não escrevo para acusar, nem absolver ninguém. Escrevo para compreender, como sempre.
Os ginásios, hoje, fazem parte da nossa rotina. Em Maputo, particularmente, surgem cada vez mais espaços dedicados ao cuidado do corpo. E isso, em si, é positivo. Cuidar da saúde física, prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida, tudo isso deve ser incentivado. Mas como em qualquer espaço social, o ginásio não é neutro. É um espaço onde corpos se expõem, olhares circulam, e energias se cruzam. Onde as intenções nem sempre são visíveis.
E aqui começo por reconhecer algo com honestidade. Vou falar do corpo feminino, porque na nossa sociedade ele continua a carregar uma carga simbólica maior. Mas seria injusto parar aí. Porque há também um fenómeno crescente que não podemos ignorar. O cuidado excessivo do corpo masculino, muitas vezes orientado não apenas para a saúde, mas para a atracção. Homens que moldam o corpo com disciplina, sim, mas também com intenção. Intenção de serem vistos, desejados, notados. E esse cuidado, que à primeira vista parece apenas saudável, pode transformar-se em linguagem silenciosa.
Conhecemos mulheres que dizem ter encontrado no ginásio uma atenção que não tinham em casa. Um olhar diferente, um elogio inesperado ou uma presença constante. E, pouco a pouco, aquilo que começou como admiração estética transforma-se em conexão emocional. E é assim que, muitas vezes, a semente do errado é plantada. Não de forma brusca mas subtil. Um “oi” que se repete, um papo que se prolonga, um treino partilhado, ou ainda, uma mensagem fora do ginásio. E quando se percebe, já não é apenas sobre exercício físico.
Por isso, quando falamos deste assunto, não podemos cair na armadilha de responsabilizar apenas um lado. Nem a mulher pelo que veste, nem o homem pelo que constrói no corpo. O problema não está no corpo. Está na intenção e na gestão dessa intenção. Há mulheres que procuram o ginásio por saúde, outras por estética, e outras, ainda por terapia. Tem quem o faça por autoestima ou por disciplina. E há aquelas que, consciente ou inconscientemente, também procuram validação.
Da mesma forma, há homens que treinam para viver melhor. E há aqueles que treinam para serem vistos. E nenhum desses movimentos é automaticamente condenável. O problema começa quando se perde o limite. Num ambiente onde corpos são valorizados, onde a estética é constantemente exposta, cria-se um campo fértil para comparações, desejos e, em alguns casos, desvios.
Existem casais que entraram em crise não por causa do ginásio em si, mas por causa do que o ginásio revelou. Mudanças de comportamento. Distância emocional. Segredos pequenos que se tornam grandes. E aqui precisamos de parar de simplificar. O ginásio não cria infidelidade, não destrói relações mas expõe fragilidades que já existiam. Se há falta de comunicação, ela aparece. Se há carência emocional, ela encontra espaço. Então, imaginem se há insegurança? Logo, voltamos ao essencial. Responsabilidade afectiva. Ser livre não significa esquecer o compromisso. Cuidar do corpo não significa descuidar da relação. Sentir-se bem consigo mesmo não deve implicar colocar o outro em risco emocional.
Também não podemos cair no erro de vigiar ou proibir. Relações não se sustentam com controlo. Sustentam-se com confiança. Mas confiança não é ingenuidade. É coerência entre o que se diz e o que se faz. Talvez a pergunta que devamos fazer não seja se o ginásio é bom ou mau, mas quem estamos a ser dentro desses espaços? Porque no fim, não é sobre alteres, espelhos ou máquinas. É sobre carácter, limites e escolhas. E talvez seja aqui que esta reflexão se torna mais difícil. Porque entre saúde e tentação, a linha não está no corpo que se vê. Está na consciência que não se vê.




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