Antes de tudo, peço desculpas pela ausência. São dias particularmente desafiadores, onde o próprio acto de circular, um pouco por todo o país, passou a exigir mais paciência, mais cálculo e mais resistência emocional. As dificuldades de mobilidade que muitos têm enfrentado acabaram por alterar rotinas, atrasar encontros, afastar famílias e criar um desgaste colectivo silencioso. Há pessoas que já saem de casa sem a certeza exacta de como irão regressar.

Outras reorganizam completamente a vida por causa das distâncias, dos custos e dos constrangimentos que se acumulam no quotidiano. E quando um país começa a viver assim, emocionalmente cansado, até o clima, que já é imprevisível neste país, fica estranho,  e as conversas mais curtas, as caras mais “binhadas” e o silêncio mais frequente.

Talvez seja exactamente por isso que hoje eu queira falar sobre o luto. Porque o luto também aparece destes estados de desgaste profundo. Não apenas da morte física, mas da sensação contínua de perda, de ausência, de desorganização emocional. E no meio disso tudo, continuamos pouco preparados para compreender verdadeiramente a dor do outro.

No nosso contexto, poucas coisas mobilizam tantas pessoas, famílias, um quarteirão ou um bairro, quanto a morte. Quando alguém parte, a casa deixa de pertencer apenas à família imediata. Os conhecidos reaparecem, as cadeiras começam a ser organizadas no quintal ou na rua. O chá não pode faltar e a comida passa a ser feita em panelas maiores. Os passos tornam-se mais lentos, excepto os das tias que ficam na cozinha, e não se deve falar alto. E, quase imediatamente, surgem também as regras do sofrimento.

Há roupa apropriada, o comportamento esperado, o tempo do recolhimento, até o modo de sentar. Em algumas famílias, espera-se que a pessoa enlutada permaneça mais isolada. Em outras, há restrições sobre onde pode ir ou como deve comportar-se durante determinado período. Tudo isso surge, em grande parte, do respeito pelas tradições e pela dimensão espiritual que a morte ocupa nas sociedades africanas.

O antropólogo moçambicano José Luís Cabaço explica que, em muitos contextos africanos, a morte não é entendida apenas como um fim biológico. Ela representa uma ruptura social e espiritual que precisa de ser reorganizada colectivamente. Já Alcinda Honwana, ao estudar os mecanismos de sofrimento e reconstrução emocional em sociedades africanas, mostra que o luto no nosso continente raramente pertence apenas ao indivíduo. Ele torna-se um assunto da comunidade inteira. E há algo profundamente humano nisso. Nenhuma sociedade deveria abandonar alguém no meio da dor.

Mas há uma questão que precisamos começar a discutir com mais honestidade, porque em muitos casos, passamos mais tempo a organizar o luto do que a compreender quem está a sofrer. Porque existe uma tendência silenciosa de vigiar a dor? Tipo, observa-se quem chorou mais, quem parecia distante, quem voltou a sorrir cedo demais, quem saiu de casa, quem retornou ao trabalho e até quem já está nas redes sociais. Como se existisse uma forma correcta de sofrer. E talvez esta seja uma das maiores violências emocionais que praticamos sem perceber. O luto não é uniforme.

A psicóloga Elisabeth Kübler-Ross, uma das maiores referências mundiais nos estudos sobre morte e sofrimento emocional, defendia que o luto não segue um percurso linear. As pessoas reagem à perda de formas diferentes porque cada vínculo afectivo é diferente. Não existe uma fórmula emocional universal para perder alguém. Mas nós insistimos em procurar essa fórmula.

Quantas mães são julgadas porque não choraram publicamente durante o funeral dos filhos? E homens que perderem esposas, e ouviram comentários sobre estarem “demasiado calmos”. O que falar das jovens viúvas serem observadas como se sorrir alguns meses depois fosse traição à memória do falecido. E tudo isso revela algo preocupante: confundimos frequentemente ritual com acolhimento.

Há práticas tradicionais profundamente importantes e dignas de respeito. Em várias regiões do país, acredita-se que o espírito do falecido permanece próximo da família durante algum tempo, exigindo certos comportamentos de resguardo, silêncio e respeito. Algumas famílias evitam festas, roupas específicas ou determinados movimentos sociais durante o período de luto. Noutras, existem rituais de purificação emocional e espiritual para ajudar a reorganizar a vida depois da perda.

Não escrevo esta crónica para ridicularizar essas práticas. Pelo contrário. Muitas delas ajudam pessoas a encontrar sentido no meio do caos emocional. O problema começa quando o sofrimento individual deixa de ser escutado e passa apenas a ser fiscalizado. Porque há pessoas que sofrem de formas pouco visíveis.

Há homens que não conseguem chorar porque cresceram a ouvir que masculinidade combina com resistência e não com vulnerabilidade. Há mulheres que tentam manter-se firmes porque sentem que precisam sustentar emocionalmente os filhos ou a família. Há jovens que parecem frios, mas apenas ainda não conseguiram processar o choque.

Recentemente, ouvi alguém dizer algo que eu próprio já vivenciei. Depois da morte da mãe, o momento mais duro não foi o funeral. Foi semanas depois, quando saiu do trabalho, cansado e pegou automaticamente no celular para lhe ligar. Só naquele instante voltou a lembrar-se de que ela já não estava viva. É isso que muitos não entendem. O luto não acontece apenas no dia da morte. Ele reaparece nos detalhes. E existem dores que fazem muito pouco barulho.

O filósofo queniano John Mbiti escreveu uma frase central para a compreensão das sociedades africanas: “Eu sou porque nós somos, logo eu sou.” Essa visão é uma das maiores riquezas do nosso continente. Mas ela também exige responsabilidade emocional colectiva. Se a comunidade participa do luto, então precisa aprender a acolher sem controlar. E talvez seja aqui que ainda falhamos muito.

Porque muitas vezes a pessoa enlutada torna-se quase uma personagem social. Espera-se dela um comportamento específico, aliada a uma postura previsível e uma tristeza visível. Mas o sofrimento humano não respeita padrões. Há pessoas que choram imediatamente. Outras apenas semanas depois. Há quem encontre refúgio na oração. Há quem precise trabalhar para não enlouquecer. Há quem precise conversar constantemente sobre quem morreu. Há quem não consiga tocar no assunto durante meses. E todas essas respostas podem coexistir.

No Cristianismo, vemos Cristo chorar diante da morte de Lázaro. No Islamismo, a dor também é reconhecida como parte da condição humana, desde que acompanhada de paciência e dignidade. Em várias espiritualidades africanas tradicionais, a ligação entre vivos e ancestrais mantém-se activa mesmo depois da morte física. Todas estas perspectivas reconhecem algo essencial: perder alguém transforma profundamente quem fica. E talvez seja precisamente aí que precisamos de amadurecer enquanto sociedade. Precisamos parar de medir sofrimento, de comparar dores e esperar performances emocionais. Parece que as pessoas só validam a dor que conseguem ver.

Escrevo esta crónica porque tenho visto muita gente cansada. Pessoas emocionalmente desgastadas. Pessoas a atravessarem lutos silenciosos enquanto continuam a trabalhar, a cuidar dos filhos, a procurar transporte, a sobreviver. E talvez a maior demonstração de humanidade seja aprendermos a olhar para essas pessoas com menos julgamento e mais presença. Porque ninguém sabe exactamente o peso da ausência que o outro carrega. Se esta reflexão puder deixar algo, que seja isto: respeitem as diferentes formas de sofrer.

Nem todo silêncio é frieza, nem toda lágrima significa amor maior e o mais importante: nem toda força aparente representa ausência de dor.

E para todos os que carregam algum tipo de luto neste momento, recente ou antigo, visível ou silencioso, desejo sinceramente que encontrem acolhimento verdadeiro. Que encontrem pessoas capazes de permanecer sem exigir performances emocionais. Que encontrem paz possível dentro da ausência. E sobretudo, que nunca sejam obrigados a provar a ninguém a profundidade da própria dor.

Vou ali, apanhar o comboio!

negro


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