A trajectória de Noémia de Sousa não pode ser compreendida apenas a partir da sua poesia. A sua obra literária, o seu percurso político e a sua experiência no interior das redes intelectuais africanas do século XX fazem parte de uma mesma história: a da formação de uma consciência africana em Moçambique sob o domínio colonial português.
Esta foi uma das principais ideias apresentadas pela professora Fátima Mendonça, nesta segunda-feira, 28, na abertura da conferência que assinala os 100 anos do nascimento de Noémia de Sousa, realizada na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em Maputo.

Na comunicação intitulada “Noémia de Sousa: uma vida em vários tempos”, Fátima Mendonça recuou às primeiras décadas do século XX para situar a poeta no processo de formação das elites africanas letradas de Lourenço Marques. Segundo a investigadora, já nessa época se desenvolvia um conjunto de ideias assentes na reivindicação de pertença a um espaço africano e na exigência de direitos cívicos e acesso à instrução.
Foi nesse ambiente, marcado pela imprensa africana e por figuras como João Albasini e Rui de Noronha, que se formou uma geração de intelectuais que procurava responder às estruturas discriminatórias do colonialismo. Mendonça considera que essa geração produziu a “primeira forma colectiva de estar com o seu tempo”, antes de uma nova geração, da qual fariam parte Noémia de Sousa, João Dias e Marcelino dos Santos, começar a questionar essas posições e a formular uma visão diferente de África.
É neste ponto que a história de Noémia ganha particular relevância. Nascida numa família pertencente a uma elite africana letrada, Noémia viveu entre diferentes espaços de Lourenço Marques, incluindo a Polana, a Mafalala e a Catembe. A experiência desses lugares tornar-se-ia fundamental para a sua escrita.
A Mafalala, em particular, surge na leitura de Fátima Mendonça como um dos espaços centrais da construção da voz poética de Noémia. Foi a partir da casa de madeira e zinco onde viveu que a jovem poeta escreveu textos que viriam a tornar-se referências da poesia africana de língua portuguesa, entre eles “Deixa passar o meu povo”.
A poesia de Noémia, contudo, não se limitou a afirmar uma identidade negra. Para Mendonça, a sua originalidade está também na capacidade de transformar a experiência social dos subúrbios num território poético e político. Contratados, estivadores, mineiros, prostitutas e outros sujeitos marginalizados entram na sua poesia como personagens de uma realidade colonial marcada pela desigualdade.
A investigadora chama atenção para a forma como bairros como Mafalala, Munhuana, Chamanculo e Xipamanine passam a ocupar um lugar central no imaginário da poeta. São espaços que, na sua análise, representam a condição de subalternidade produzida pelo sistema colonial.
Essa dimensão social é particularmente evidente em poemas como “Zampungana” e “Passe”, nos quais a voz individual se transforma numa voz colectiva. O sujeito poético deixa de falar apenas por si e passa a falar pelos “despojados”, pelos que não tinham lugar na cidade colonial.
É também nessa passagem da poesia para a intervenção pública que Fátima Mendonça identifica uma das dimensões menos conhecidas da vida de Noémia de Sousa: o seu activismo político. A poeta participou, em 1949, na constituição do MUD em Moçambique e esteve envolvida em actividades de propaganda anticolonial, tendo sido detida nesse período.
A sua ida para Lisboa, em 1951, não significou o afastamento dessa realidade. Pelo contrário, Noémia entrou em contacto com círculos africanos que reuniam figuras como Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Mais tarde, esteve ligada ao Movimento Anti-Colonial (MAC), integrando o seu directório num momento em que começavam a ganhar forma diferentes projectos de libertação nacional africana.
Fátima Mendonça chamou ainda atenção para o modo como a dimensão política da vida de Noémia acabou, durante muito tempo, por ficar secundarizada perante a sua consagração literária. Depois da independência, a poeta visitou Moçambique várias vezes e viu a sua obra reconhecida pelas escolas e pelas novas gerações de escritores. Em 2001, um ano antes da sua morte, Sangue Negro foi finalmente publicado em Moçambique pela AEMO, cumprindo um desejo da autora.
“Com a extraordinária obra poética que nos legou ficou o rasto dessa discreta existência traduzida em acção política e cívica, como testemunha e participante do movimento que no pós-guerra acreditava nos futuros radiosos de uma África já em convulsão”.
Para Mendonça, recuperar Noémia de Sousa cem anos depois do seu nascimento implica, por isso, olhar para além do mito da poeta. Implica reconhecer uma mulher que escreveu a partir de um lugar concreto, viveu as contradições do seu tempo e participou, de diferentes formas, na construção de uma consciência africana.
No final da sua comunicação, a investigadora recupera os versos de “Poema da infância distante”, escritos em 1950, para recordar a dimensão de esperança que atravessa a obra de Noémia. A poeta escrevia sobre um futuro em que “o sol iluminará a vida” e uma nova infância surgiria para todos.
Cem anos depois do seu nascimento, essa voz continua a ser lida não apenas como testemunho de uma época, mas como parte fundamental da história literária, cultural e política de Moçambique.




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